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Entre um canto as dores

Atualizado: 2 de ago. de 2022

E se nos prepararmos para a felicidade assim como nos preparamos para o sofrimento?

Pode ser que o que você vai ler agora, dispare imediatamente uma negação. Mas convido você a não parar por aí e meditar em cima desta pequena frase:





Nós definimos a nós mesmos pela dor que sentimos.




E foi exatamente assim que aprendemos. Que para ser dignos de amor, de afeto e de carinho, precisamos demonstrar um pouco de sofrimento, ou ninguém iria sequer chegar perto de nós. Ora pois, quanta prepotência seria se não estivéssemos tão desmantelados. Cada um tem um lado dolorido, porém aqueles que escolhem não mostrar ao outro, podem acabar carregando sérios desafetos. Como se fosse um absurdo não demonstrar o sofrimento escancarado, carente e melodramático, dignos de uma cena de novela. Já sentiu o tanto que é pesado, precisarmos provar a todo momento que somos dignos da vida? Foi preciso inclusive que essas dores estivessem expostas, porque aí sim você seria considerado 'normal', e, agora você merece nossa atenção. Quando bebês é de extrema necessidade esguelhar, mas enquanto adultos, cada qual escolhe como irá lidar com seus infortúnios.


Por vezes é mais fácil julgarmos os mais reservados, do que simplesmente fazer a fatídica pergunta "Você está bem?" e de fato esperar pela resposta, estando dispostos a ouvi-la. Porque se vier um 'não' , talvez o outro lado queira lhe mostrar um pouco da sua humanidade, mas o que você não sabe é que ele está sedento por ouvidos que sabem ouvir e acolher, não por ouvidos que julgam, apontam ou menosprezam a dor alheia. Simplesmente procuram alguém que genuinamente os queira ouvir, sem emitir opiniões, sem fórmulas mágicas, sem comparações. Um espaço para poderem exercer o direito de serem vulneráveis. Justamente porque ninguém sabe o tamanho da dor do outro, não há medidas para a dor. Dor é dor e ponto. Talvez você seja a pessoa que poderá ajudar a carregar um pouquinho do peso da mochila por um pedaço da trilha, porém nem sempre queremos isso.


A nossa troca, muitas vezes, fica no perguntar se o outro está bem, convencionalmente, sem realmente querer saber, sem querer conhecer o que move ou o que sustenta aquela pessoa. Mas o que procuramos é exatamente ao contrário, queremos ser ouvidos, mas não nos dispomos a tal. Como que funciona essa balança equilibrada então? Quantas vezes você tem sido só descarga? E quantas pessoas pararam de te procurar como apoio, pois só encontram um ralo entupido? O quanto você cobra o outro de se abrir com você, de te contar os segredos, de compartilhar os problemas, mas nunca se coloca disponível emocionalmente para de fato compreendê-lo, como humano. Ouvimos muitas vezes para poder responder e reafirmar nossas crenças, é mais uma motivação egoísta do que humanista. Você somente quer ter o acesso privilegiado à informação e, quando o outro o priva, você fica bravo(a).

Será que é o outro mesmo que não quer compartilhar? Ou o outro apenas escolheu melhores lugares onde se sente compreendido e pertencido. Eu entendo também quem não consegue estar disponível para sentir a intensidade e profundidade alheia, e por isso ou foge ou desconversa ou não suporta, pois muitos ainda estão perdidos em si mesmos, indisponíveis. Isto não significa que você não é digno, só que encontrou um terreno árido.


É certo que há diversas pessoas que usam a dor para manipular o outro, mesmo que de forma inconsciente, o que também não as deixam imunes da responsabilidade. Mas aqui vai o meu reconhecimento àqueles que enfrentaram e continuam enfrentando batalhões sozinhos, pois vocês também são dignos de amor, apesar de não pedirem escancaradamente. Eu entendo o seu sacrifício e entendo que esta foi a melhor maneira que encontraram para se expressar. Até quando será preciso gritar para ser ouvido? O quanto conseguimos desenvolver empatia, sem precisar de justificativas? Há muita informação no silêncio, para quem se permite ser tocado por ele.


Quando percebemos que as dores não precisam nos governar mais, mudamos a percepção e logo mais não nos interessa falar tanto sobre as dores, mas sobre o castelo que construímos com elas. Há sempre a oportunidade de transmutar tragédias em tesouros. Essa é a alquimia da vida, ir do chumbo ao ouro. E é aqui que nos tornamos mais dignos. Não pelo sofrimento que cultivamos e que por muito tempo nos definiu, e, quando eu olho para a humanidade, percebo que ainda define. Mas pela capacidade de perceber-se como unidade importante do todo, colhendo também os louros da vitória.

Convido-os a olhar de outra perspectiva, pelo o quanto de nós, por muito tempo, se sentiu indigno por não ter sofrido tanto, lutado tanto, suado tanto. Parecia que precisávamos sofrer para ter valor. E ali, nesse espaço, manifestamos uma realidade servil, para que então, pudéssemos também ser merecedores. Ou pior, nos colocamos menores do que sentimos, pois quando o outro está gritando, parece que a nossa penúria nem é tão importante assim. A dele deve ser mais, porque afinal, ele está gritando. A grande compreensão é que a sua dignidade não é mensurada pelo tanto que você sofreu, mas sim, mensurada por quanto você é capaz de se reconhecer, com, sem ou apesar do sofrimento. Assim como o quanto você ainda precisa estar inserido na dinâmica de vítima e algoz, alternando ora por um papel, ora por outro.


Quem seria você sem as suas dores te sustentando?


Afinal, o que motiva a sua felicidade? O tamanho do tormento ou o tamanho da esperança? Por qual lado você escolhe seguir caminhando? Pela alquimia da vida ou pelo melodrama?


Simplesmente chega uma hora, que não mais é necessário resgatar as memórias dolorosas, mas sim, apenas seguir o caminho, certos de que está fazendo o seu melhor. O som do silêncio fala alto quando se decide mudar o foco.


Qual será hoje a dor que sustenta todo esse seu sistema? Que te manteve de pé até aqui? Através de qual suplício você conseguiu encontrar preenchimento? De quem você é mártir?


Essas são apenas algumas reflexões, para um mergulhar em si mesmo, sem julgamentos. Quando nos permitimos ir à fundo, nos deparamos com partes nossas que abominamos e talvez esse seja seu momento de abrir a caixa de pandora. Tenho certeza que várias vezes outras pessoas olharam para você e desejaram tirar de você a dor, mas mal sabem elas o que está por trás, que esta atitude seria como tirar uma parte de você e aí você desmoronaria. Provavelmente uma complexa engenharia, somada a um mecanismo de sobrevivência muito bem estabelecidos, foram as proteções que te permitiram chegar até aqui.

Assim que você tomar propriedade disso, afinal, você mesmo foi o engenheiro desta obra, há uma chance de escolha. Escolha consigo, se ainda é necessária essa estrutura, ou se ela está precisando de uma reforma, para que então o novo visual possa adentrar.


Só mergulhe fundo se tiver a certeza de ter fôlego e de que consegue nadar em suas profundezas, caso contrário, o tempo é seu aliado e cada um tem o próprio para administrar. E se assim você decidir, merece também ser respeitado em tal.


"Até cortar os próprios defeitos pode ser perigoso. Nunca se sabe qual é o defeito que sustenta nosso edifício inteiro." Clarisse Lispector
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